Advogados que atuavam na defesa de médicos desde 2019 perceberam que faltavam peritos e que o obstáculo era a burocracia. Criada em 2024, a M Perícias geriu 15.779 perícias em sete meses e conta como atravessou a crise de atendimento de janeiro
Todo processo judicial que depende de uma questão técnica, como a extensão de uma lesão, a causa de uma incapacidade ou o nexo entre uma doença e o trabalho, precisa de um perito. Quem nomeia esse profissional é o juiz, a partir do cadastro mantido por cada tribunal, como determina o artigo 156 do Código de Processo Civil. Para o médico, o laudo é a parte que ele domina. O que costuma afastá-lo da função é tudo o que vem antes e depois dele.
Foi nesse intervalo que a M Perícias, de Maringá (PR), construiu o negócio. Exclusiva para médicos, a assessoria assume o cadastro nos tribunais, o acompanhamento de intimações e prazos, a organização de documentos e a proposta e cobrança de honorários, e devolve ao profissional apenas a parte técnica do trabalho. Segundo a empresa, são hoje 1.852 peritos médicos ativos nos tribunais, com cadastro em todos os estados do país, e 15.779 perícias geridas entre março e setembro de 2026.
1. A origem: um escritório que defendia médicos
A história começa antes da empresa. Desde 2019, o grupo atua como advocacia na defesa de médicos em processos judiciais. À frente dele está Alcides Martinhago Junior, CEO da M Perícias, advogado que já atuou em 5.642 processos e autor dos livros Blindagem Médica, Blindagem do Perito Médico e Negócios de Alta Complexidade.
“Depois de atuar em mais de 3.000 processos na defesa de médicos, percebemos uma falta muito grande de peritos médicos judiciais. Quando perguntávamos aos nossos próprios clientes por que eles não atuavam nessa área, a resposta quase sempre era a mesma: burocracia”, conta Martinhago. “Eles não tinham tempo para fazer cursos, entender todo o funcionamento dos tribunais e muito menos deixar a medicina de lado para aprender a trabalhar como peritos”, completa.
Em agosto de 2024, a M Perícias começou atendendo os próprios clientes do escritório, que já estavam espalhados por todas as regiões do Brasil. Quando esses médicos passaram a ter uma segunda fonte de renda sem abandonar a rotina clínica, o boca a boca se espalhou. Em fevereiro de 2025, a M Perícias virou marca e passou a atender médicos que não eram clientes do escritório. Hoje são 102 colaboradores, 80 deles advogados.
2. O que a assessoria faz, e o que ela não faz
O crescimento trouxe uma pergunta que a empresa passou a responder de forma direta: o que exatamente o médico contrata. A resposta começa pelo que não está à venda. A nomeação é ato exclusivo do juiz, e nenhuma empresa privada pode garanti-la.
“Nenhuma empresa vende nomeação. Quem nomeia é o juiz. O que a gente entrega é o médico cadastrado, com a documentação em dia, os prazos controlados e a proposta de honorários bem feita”, diz Martinhago.
O trabalho, portanto, é operacional. Cada tribunal mantém o próprio cadastro, com exigências e atualizações próprias. Depois da nomeação, o perito tem cinco dias para apresentar proposta de honorários, currículo e contatos (artigo 465 do CPC), precisa avisar os assistentes técnicos das partes com antecedência e responde pelo prazo do laudo, sob pena de substituição (artigo 468). Para um médico que atende em consultório ou dá plantão, é essa engrenagem que decide se a perícia vira atividade ou fica no plano das intenções.
3. A crise de janeiro e o que mudou depois dela
Crescer também testou o atendimento. Em janeiro de 2026, quando a empresa tinha cerca de 600 clientes, o contato estava concentrado em um único número de WhatsApp. Depois de um período de férias, esse número começou a sofrer bloqueios e acabou banido. Na transição para novos canais, outros números também foram bloqueados, e por cerca de dois meses a comunicação com os clientes ficou mais difícil do que deveria.
“Mesmo assim, a operação não parou. Nenhum prazo foi perdido. Nenhuma perícia deixou de ser aceita ou recusada”, afirma Martinhago. Segundo ele, sócios e líderes chegaram a usar os próprios números de celular para manter os processos andando.
Nesse período, parte dos clientes que não conseguiu contato recorreu ao Reclame Aqui, onde a empresa é verificada. As reclamações foram tratadas uma a uma e, segundo a M Perícias, os próprios clientes registraram a solução na plataforma. Com a causa corrigida e novos canais de atendimento estruturados, a empresa está há mais de seis meses sem receber novas reclamações de clientes no Reclame Aqui.
“Para nós, esse resultado é motivo de orgulho, porque mostra que não apenas resolvemos um problema, mas evoluímos a empresa a partir dele”, diz o CEO.
4. O próximo passo: ser encontrada por quem precisa de perito
Além dos médicos, a empresa passou a atender a outra ponta do processo. Advogados e partes podem buscar peritos médicos por cidade, estado ou especialidade no diretório da M Perícias. A solicitação é direcionada ao perito mais próximo da comarca de origem.
A lição que a trajetória deixa para quem empreende em serviços profissionais é menos sobre tamanho e mais sobre clareza. Em um mercado em que o cliente pesquisa antes de comprar, dizer com precisão o que se entrega, e o que não se entrega, virou parte do produto.
