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Mulheres comuns: Romance resgata a história das avós que o Brasil esqueceu

Em "Filhos das Dores", Keila Prado Costa reconstrói a vida da avó, uma mineira que teve 15 filhos, enterrou seis, rompeu com um marido violento e criou os demais sozinha. O livro está entre os mais vendidos do Kindle em seis categorias

Inspirado em uma história real, Filhos das Dores é um romance sobre maternidade, sobrevivência e mulheres anônimas que mudaram o destino de gerações.
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Em “Filhos das Dores”, Keila Prado Costa reconstrói a vida da avó, uma mineira que teve 15 filhos, enterrou seis, rompeu com um marido violento e criou os demais sozinha. O livro está entre os mais vendidos do Kindle em seis categorias

Toda família brasileira tem uma Maria das Dores. É a mulher que sustentou a casa, atravessou perdas e violência em silêncio e, uma ou duas gerações depois, quase desapareceu da memória, sem retrato na parede nem nome nos livros. Essas histórias costumam sobreviver só na oralidade, contadas em voz baixa nas cozinhas e esquecidas quando morrem os últimos que as ouviram. Por trás delas está o Brasil real do século 20: o país que se urbanizou às pressas, com 27 milhões de pessoas deixando o campo entre 1960 e 1980, e onde a violência dentro de casa raramente tinha nome. Essa violência continua atual: 3,7 milhões de brasileiras relataram ter sofrido violência doméstica ou familiar no último ano, segundo o DataSenado (2025). É desse território de ausências que nasce Filhos das Dores, romance de estreia de Keila Prado Costa, que propõe uma pergunta incômoda: quem foram as mulheres que sustentaram a história de cada família, e por que quase ninguém registrou seus nomes?

Uma vida que cabe na história do país

Maria das Dores nasceu em 1915, em Boa Esperança, no sul de Minas Gerais. Aos 11 anos, deixou de ser criança quando a mãe foi enviada a uma colônia de isolamento para pessoas com hanseníase. Casou-se, teve 15 filhos e enterrou seis. Viveu da roça, do trabalho duro e de um casamento marcado pela violência. Então, tomou uma decisão rara para uma mulher de seu tempo: rompeu com o marido e assumiu sozinha o destino dos filhos.

Anos depois, deixou Boa Esperança rumo a Guarulhos, na Grande São Paulo, atrás de trabalho nas fábricas para os filhos. Fez o mesmo caminho de milhões de mineiros.

Enquanto os filhos cresciam e construíam as próprias vidas, a mulher que havia segurado a família começou, aos poucos, a desaparecer de sua própria história.

O desfecho resume o livro. Maria das Dores morreu em Guarulhos, mas pediu para ser enterrada em Boa Esperança, o lugar ao qual ela de fato pertencia. O cortejo refez ao contrário o caminho da migração, e o comércio da pequena cidade fechou as portas à passagem do corpo. A cena é descrita no romance a partir de relatos da família.

Há ainda uma coincidência que nenhum romancista inventaria. Antes de se chamar Boa Esperança, a cidade foi batizada, em 1804, de Dores do Pântano, e seus moradores ainda hoje são chamados de dorenses.

Reconstruir o que não foi escrito

Décadas depois, uma neta que nunca chegou a conhecer a avó decidiu reconstruir essa trajetória. Keila Prado Costa reuniu documentos, fotografias, lembranças e, principalmente, os silêncios da família. Formada em Letras pela USP, ela é filha de trabalhadores rurais e operários de Guarulhos e foi a primeira mulher da família a entrar numa universidade pública. Cresceu cercada de histórias contadas em voz alta que nunca chegavam ao papel.

“Escrevi para os outros por mais de 20 anos. Filhos das Dores é o momento em que decido que minha história, e a da minha avó, também merece existir em livro”, diz a autora.

A escrita ganhou urgência em 2025, quando Keila acompanhou a internação e os cuidados paliativos da tia, Nelci, que tinha síndrome de Down e viveu a vida toda ao lado da família. Os últimos meses ao lado dela mudaram a forma como a autora enxergava o tempo e a memória, e essa experiência atravessou o livro que ela já vinha escrevendo sobre a avó. O cuidado vira então o fio que liga as duas histórias: uma mulher que cuidou de nove filhos sozinha, retratada por outra que cuidava da tia enquanto escrevia.

Um espelho para outras famílias

Inspirado em uma história real, Filhos das Dores é um romance sobre maternidade, sobrevivência e mulheres anônimas que mudaram o destino de gerações. Ao terminar a leitura, Maria das Dores deixa de ser apenas uma personagem e passa a funcionar como espelho. O leitor reconhece nela uma mãe, uma avó ou uma mulher da própria família, e sai com vontade de olhar para trás e perguntar quem foram as mulheres que sustentaram a sua história.

A resposta do público veio rápido. Poucos dias após o lançamento, o livro entrou nas listas de mais vendidos do Kindle em seis categorias, entre elas Romance Histórico Século 20.

Filhos das Dores integra um movimento mais amplo. A publicação independente vive um momento recorde no Brasil, e as memórias familiares estão entre as frentes que mais crescem. Poucos livros desse movimento, porém, transformam uma história de família num retrato tão preciso das mulheres que o país deixou fora dos registros.

Serviço

Filhos das Dores, de Keila Prado Costa

Romance | 355 páginas | E-book exclusivo na Amazon

Sobre a autora

Keila Prado Costa acredita, desde criança, que transformar ideias e sentimentos em palavras é uma das grandes artes da vida. Graduada e mestre em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), fez das palavras também seu ofício, construindo uma trajetória dedicada aos livros, à comunicação e ao trabalho editorial. 

Há mais de duas décadas, vive entre livros, palavras e histórias, algumas que ajuda a contar, outras que escolheu escrever.

Em Filhos das Dores, seu romance de estreia, volta-se para a própria origem. Entre memórias, documentos e silêncios, reconstrói a trajetória da avó que nunca conheceu e transforma uma história guardada por gerações em literatura.