Quando a regra de negócio passa a rodar dentro do sistema de um fornecedor, quem decide deixa de ser a empresa. Para Guilherme Friol, CEO da Vircos, o debate sobre contratar ou construir inteligência artificial não é técnico: é sobre quem controla o critério.
A adoção de inteligência artificial no ambiente corporativo brasileiro avançou por um caminho previsível: começou por ferramentas de uso geral, migrou para soluções específicas de cada área e chegou aos processos que definem como a empresa opera. É nessa última etapa que aparece um efeito pouco discutido nas propostas comerciais. Ao contratar um sistema pronto para executar uma decisão de negócio, a empresa não está apenas terceirizando a execução. Está terceirizando o critério.
A distinção importa porque o critério é o que diferencia uma empresa da outra. Duas transportadoras podem usar o mesmo software de roteirização e ainda assim decidir de forma diferente o que fazer quando uma entrega atrasa. Duas financeiras podem usar o mesmo modelo de análise e ainda assim ter políticas de risco distintas. Quando essa lógica passa a rodar dentro de uma ferramenta de terceiro, a diferença tende a desaparecer, porque todos os clientes daquele fornecedor passam a decidir do mesmo jeito.
Para Guilherme Friol, CEO da Vircos, empresa de engenharia de inteligência artificial corporativa, esse é o ponto que costuma passar despercebido na comparação entre contratar e construir. A discussão é conduzida como escolha de tecnologia, quando o que está em jogo é o controle sobre a regra.
“Se a lógica que define como a sua empresa decide está rodando dentro do sistema de outra empresa, quem decide é a outra empresa. Isso não é uma opinião sobre tecnologia, é uma descrição do arranjo”, afirma Guilherme Friol.
O arranjo tem consequências práticas quando alguma coisa muda do lado do fornecedor. Modelos de inteligência artificial são atualizados, substituídos e descontinuados com frequência, em decisões que não passam pelo cliente. Uma alteração no comportamento do modelo pode modificar o resultado de um processo interno sem que a empresa tenha sido consultada, avisada ou sequer informada do que mudou.
Parte da confusão vem do próprio mercado. A consultoria Gartner descreve como agent washing a prática de renomear assistentes, automações e chatbots já existentes como agentes de inteligência artificial, sem capacidade correspondente, e estima que apenas cerca de 130 dos milhares de fornecedores que se apresentam nessa categoria sejam reais. A mesma consultoria projeta que mais de 40% dos projetos de inteligência artificial agêntica sejam cancelados até o fim de 2027, por custos crescentes, valor de negócio pouco claro ou controles de risco insuficientes.
Guilherme Friol delimita o argumento para evitar leitura absoluta. Comprar continua sendo a decisão correta para tarefas que toda empresa executa da mesma forma, como transcrição, leitura automática de documentos ou tradução. O problema não é a compra em si, é a ausência de um critério que separe o que pode ser comprado do que precisa permanecer sob controle interno.
“Ninguém terceiriza a decisão de propósito. Terceiriza porque a proposta chegou com um problema resolvido e ninguém perguntou onde a regra ia morar”, diz o executivo.
A recomendação prática que ele defende não exige refazer a estrutura de tecnologia. Passa por três perguntas antes de qualquer contratação: qual regra de negócio essa ferramenta vai executar, quem consegue explicar por que ela chegou a determinado resultado e o que acontece com a operação se o fornecedor alterar ou encerrar o serviço. As respostas costumam indicar, com clareza, o que pode ser contratado e o que precisa ser construído.
O tema deve ganhar relevância à medida que a inteligência artificial deixa de ocupar tarefas periféricas e passa a operar em processos críticos. Enquanto a tecnologia resumia reuniões, a discussão sobre soberania da decisão era abstrata. Quando ela começa a definir preço, prioridade e limite de risco, a pergunta sobre quem controla o critério deixa de ser filosófica e passa a ter efeito direto no resultado.
