Criada por Vander Valente, healthtech combina atendimento médico remoto, protocolos clínicos e entrega de medicamentos para enfrentar uma doença crônica marcada por abandono terapêutico e barreiras de acesso.
A obesidade deixou há muito tempo de ser um tema restrito à estética ou à força de vontade individual. Reconhecida como doença crônica, ela atravessa renda, território, rotina de trabalho, acesso a especialistas e custo de medicamentos. No Brasil, onde mais de 55% da população vive acima do peso, segundo a ABESO, Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, o desafio não está apenas em iniciar um tratamento, mas em conseguir mantê-lo.
É nesse ponto que a Althera, healthtech brasileira voltada ao tratamento da obesidade, tenta ocupar espaço. Em três meses de operação, a plataforma registrou mais de 15 mil pessoas em busca de informações e serviços. O número ajuda a dimensionar uma demanda reprimida: brasileiros que convivem com excesso de peso, muitas vezes em graus avançados de obesidade, mas enfrentam dificuldade para acessar acompanhamento médico contínuo.
Fundada por Vander Valente, CEO e sócio fundador da empresa, a Althera combina consultas médicas online, protocolos clínicos estruturados e entrega domiciliar de medicamentos prescritos por meio de farmácias parceiras. A proposta é reduzir as barreiras que costumam interromper o tratamento, do custo da medicação à distância entre uma consulta e outra.
“Um dos principais obstáculos para manter um tratamento contra obesidade, hoje, é o custo dos medicamentos. Mas isso vai mudar com a queda de patentes e o desenvolvimento de novas drogas. O segundo grande obstáculo é o acesso ao médico mesmo”, afirma Vander.
A lógica da plataforma parte de uma constatação simples: doenças crônicas exigem continuidade. No caso da obesidade, o paciente precisa de acompanhamento, ajustes de dose, avaliação de efeitos colaterais, orientação sobre exames e suporte para não abandonar o processo depois das primeiras semanas.
“Esse tratamento precisa de acompanhamento contínuo e de ajustes mensalmente. Além dos efeitos colaterais ao longo do tempo. Então, o acesso ao médico, de maneira recorrente, é um problema considerável nos atendimentos tradicionais”, explica o empresário.
No modelo da Althera, o paciente passa por uma triagem digital, responde questionários, envia exames, realiza avaliação médica e, quando aprovado clinicamente, pode receber a medicação em casa ou adquiri-la por conta própria. Depois da consulta, o acompanhamento segue pela plataforma, com espaço para dúvidas, relato de sintomas e ajustes no tratamento.
“Paciente pergunta se pode fazer isso ou aquilo, se o que ele está sentindo é normal, etc. E ter o médico ali sempre pronto para perguntas e respostas é crucial para o paciente se sentir bem cuidado”, diz Vander.
A empresa também aposta em parcerias com farmácias para tentar reduzir o peso financeiro do tratamento. Segundo o CEO, houve negociação direta para viabilizar medicamentos com valores mais acessíveis. “Temos parcerias com farmácias que oferecem a medicação com um custo um pouco mais acessível. Existiu todo um trabalho de negociação com as farmácias para que isso fosse possível”, afirma.
O dado interno sobre o perfil dos pacientes reforça a dimensão do problema. De acordo com Vander, cerca de 70% das pessoas que procuram a plataforma e começam a preencher a avaliação têm obesidade nos níveis 1, 2 ou 3. Dentro desse grupo, 30% apresentam obesidade nível 3, considerada a forma mais grave da doença.
“Esse é um perfil bem claro de quem procura a Althera”, afirma. Segundo ele, parte relevante dos pacientes nunca havia iniciado tratamento justamente pela dificuldade de acesso a acompanhamento médico regular.
A telemedicina, nesse contexto, aparece como tentativa de aproximação entre paciente e cuidado, especialmente em um país em que a oferta de especialistas é desigual. Ainda assim, Vander reconhece que o atendimento remoto desperta dúvidas, sobretudo em um setor sensível, onde promessas fáceis e soluções milagrosas circulam com frequência.
“Existe, sim, dúvidas das pessoas, se os tratamentos oferecidos são reais, se elas vão receber os cuidados que precisam, se não vão cair em um golpe”, comenta. “São dúvidas que são respondidas e, depois que elas passam pelas consultas com o médico, os receios vão embora e fica somente a vontade de seguir os tratamentos.”
A Althera procura se diferenciar justamente ao defender que a tecnologia não substitui a decisão médica. A inteligência artificial e as ferramentas digitais entram na organização da jornada, na redução de etapas burocráticas e no apoio à operação. A condução clínica, segundo a empresa, permanece sob responsabilidade dos profissionais de saúde.
“A tecnologia entra para descomplicar a vida do paciente e para elevar o nível do rigor da atuação médica”, pontua Vander.
A experiência da Althera se insere em uma discussão mais ampla sobre o futuro da saúde digital no Brasil. A popularização da telemedicina após a pandemia abriu caminho para novos modelos de cuidado, mas também expôs uma questão central: acesso não pode significar precarização. Para funcionar em doenças crônicas, a tecnologia precisa ampliar a presença médica, não transformar o paciente em consumidor solitário diante de uma tela.
No caso da obesidade, esse cuidado é ainda mais sensível. O paciente chega, muitas vezes, depois de anos de frustração, tentativas interrompidas, vergonha, medo de julgamento e dificuldades financeiras. A promessa de um modelo digital só se sustenta se conseguir oferecer algo que o sistema tradicional frequentemente falha em garantir: continuidade.
Com mais de 15 mil interessados em três meses, a Althera aposta que plataformas integradas de acompanhamento podem deixar de ser uma alternativa conveniente e passar a ocupar um lugar relevante no cuidado de doenças crônicas. O desafio será provar que eficiência, escala e rigor clínico conseguem caminhar juntos.
Para Vander, a missão da empresa é justamente atuar nesse ponto de abandono entre a intenção de tratar e a permanência no tratamento. “Nosso objetivo é realmente democratizar o acesso e a adesão para pacientes que têm problemas crônicos, que precisam de tratamento recorrente”, afirma.
A obesidade, afinal, não se resolve com slogans de emagrecimento nem com a velha moralização do corpo alheio. Exige medicina, presença, acesso e acompanhamento. É nesse terreno, menos glamouroso e mais concreto, que a Althera tenta construir seu espaço.
